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Carlos Araujo
Direito empresarial
Quando o carteiro chegou e não trouxe meu whastapp

Existe um samba muito bonito de autoria de Cícero Nunes e Aldo Cabral composto em 1946 e eternizado na voz de Isaurinha Garcia chamado Mensagem e que dizia em seus versos inicias: "Quando o carteiro chegou, e o meu nome gritou, com uma carta na mão."

Sim, o samba fala de uma coisa chamada "carta", algo que qualquer pessoa regularmente alfabetizada e com mais de 30 anos já escreveu, mandou e recebeu mas que, muito em breve, vai se tornar peça de museu. Sim, peça de museu, dessas que ficam expostas em molduras de vidro, em lugar de destaque para que as próximas gerações possam estudar e admirar com surpresa e curiosidade, como as civilizações antepassadas costumavam se comunicar.

Um amigo, esta semana, me disse que chegou em casa e encontrou a filha adolescente assustada, quase em pânico, com o fato de que o aplicativo Whatsapp havia "caído" ou, traduzindo para os menos adeptos, o aplicativo da gigante Google enfrentava uma pane momentânea na rede. Foi um assunto que movimentou todo mundo por algumas poucas horas. Tempo mais que suficiente para gerar perplexidade e apreensão nas hostes de fãs desse meio de comunicação. Rapidamente passamos daquela habitual reclamação de má qualidade de nossa internet brazuca (de padrões e rapidez de terceiro mundo e preços de primeiro), para o desenvolvimento de teorias conspiratórias, explicações sem base e boatarias infundadas. Por todos os lados hipóteses pulularam. Em tempos de eleição de Trump e Macron, logo surgiram teorias conspiratórias as mais diversas e díspares. De uma possível terceira guerra mundial, à ação de hackers russos que saberiam como desestabilizar a rede mundial de computadores. Até mesmo de uma ação orquestrada pelo exercito norte coreano se falou. Felizmente foi só mesmo uma instabilidade do sistema no mundo todo. Nada de hackers russo ou norte coreanos. Mais felizmente ainda nesse caso de não ter sido uma ação desses últimos que, provavelmente, saberiam "derrubar" o sistema mas não saberiam depois, trazê-lo de volta. O que se apreende com mais esse episódio envolvendo o whatsapp? Não se trata aqui, em absoluto, de ser contra a modernidade e nem de ficar repetindo discursos tais como, que recursos tecnológicos mais atrapalham do que facilitam a nossa vida moderna, mas é uma realidade (triste) que, atualmente, as pessoa não conversam mais entre sí. Pior, quase não observa a vida, salva pela tela de um celular, de um tablet ou de um micro. Chega a ser lugar comum aquelas cenas que estamos cansados de presenciar (e vivenciar) em restaurante ou em nossas casas, de quatro ou cinco pessoas reunidas em um mesma ambiente, todos usando celulares e sem conversar entre si. A cena se repete cotidianamente, seja num vagão do metrô, no carro ou até mesmo num rápido deslocamento num elevador. Quando não temos assunto, ou pior, quando temos, nos voltamos para a tela do celular para falar com alguém, desde que seja longe. As pessoas, especialmente as mais jovens, não conversam mais e, mal se comunicam entre sí e com aqueles ao seu redor. Contrário senso, a internet afastou as pessoas na mesma proporção em que aproximou o mundo e diminuiu as distâncias.

Entendo e defendo todos os avanços que a internet e seus muitos recursos e aplicativos trouxeram para o mundo moderno nas mais diversas áreas da ciência, educação, saúde e trabalho, mas, nada a meu ver, pode substituir a conversa, o diálogo pessoal, o contato humano que nos caracteriza e diferencia das demais espécies que (ainda) habitam este planeta. Caminhamos a passos largos para a extinção desses hábitos saudáveis em mais uma daquelas incompreensíveis e incoerentes ações da chamada evolução humana.

Recentemente li um artigo publicado em jornal de grande circulação que dizia que estudos recentes comprovavam que o uso de tables e celulares por crianças muito pequenas pode atrasar o desenvolvimento da habilidade de falar dessas crianças na proporção de 49% a cada minuto diante de uma tela desses aplicativos. Afora os inconvenientes físicos desses aparelhos que são, cada dia mais, uma extensão de nossas mãos. Recentemente uma pesquisa publicada no Surgical Technology International Journal associa o desenvolvimento de graves problemas de coluna ao hábito de se ler mensagens no whatsapp. Diz esse artigo que ao inclinar-se a cabeça para a frente, a pessoa sai do seu eixo normal, sobrecarregando os músculos do pescoço. Os 60 graus de inclinação, que é em média o ângulo que fazemos quando estamos digitando ou lendo uma mensagem no celular, significa uma carga equivalente a 27 quilos para a musculatura do nosso pescoço!

Acho mesmo que as pessoas hoje em dia não sabem mais escrever ou pior, têm preguiça de fazê-lo. Preferem, ao invés disso, "digitar" uma mensagem. E este não é infelizmente um fenômeno nacional, mas sim mundial. Escrever uma carta passava pelo processo do tempo. Havia algo de humano, diria até civilizado em escrever uma carta. A pessoa apagava, corrigia, REFLETIA e, finalmente, escrevia o que queria dizer, de uma maneira absolutamente oposta e distinta do que fazemos hoje, quando registramos apressadamente os fatos que vemos, ou pior, ouvimos dizer e, mais rapidamente ainda, na maioria das vezes de forma açodada e irrefletida, enviamos nossas cartas eletrônicas na forma de mensagens, whastapp ou "post" no face, na ansiedade de sermos os primeiros a darmos aquela noticia, contar aquela piada ou reproduzir aquela novidade. Via de regra os destinatários são sempre os mesmos amigos, seguidos dos habituais comentários ou aqueles, automatamente repetido envio de caracteres, que pretendem demostrar emoções ou reações as mensagens recebidas. Os tais emojis, como se diz hoje em dia. Uma evolução do emburrecimeto coletivo que, em nome dessa agilidade da informação, faz com que as pessoas atualmente diminuam até o derradeiro hábito de digitar palavras em sua tentativa de se comunicar.

E tudo isso sem falar nas inconsistências do sistema. Não o da rede mundial de computadores, mas as nossas mesmo. A letra do samba Mensagem, contava a história de uma mulher que já sabia que recebera uma má notícia simplesmente por reconhecer a caligrafia do homem amado, grifada no envelope da carta que lhe foi entregue. Sequer isso podemos mais fazer hoje em dia. A metáfora de reconhecer a caligrafia significa que sabíamos quem estava nos escrevendo e o que pretendia se dizer. Hoje a internet, sob o véu do anonimato das mensagens enviadas e reenvidas mil vezes por todos, muitas vezes replica boatos, mentiras e desinformações sem rosto e sem culpa. Mensagens são enviadas sem refletir que toda mensagem tem, por regra, um emissor e um receptor. Um ou centenas, quem sabe, milhares.

Esse meu amigo do início da história me disse que o curioso, ou triste se encaramos a forma como os fins justificaram os meios, foi que ao final, vencidos pela ansiedade comum e o temor mútuo de que o whatsapp não fosse "voltar" tão cedo, pai e filha nada puderem fazer a não ser, conversar um pouco... É quase como fazia-se, há não muito tempo atrás, quando faltava luz em casa, a TV silenciava e as famílias tinham que conversar durante um jantar improvisado a luz de velas. O que me leva a refletir que essa história é mais antiga do que parece, embora tenha piorado hoje em dia a níveis quase intoleráveis. Mas, felizmente, logo tudo "voltou ao normal" e para a felicidade geral do meu amigo, da sua filha, e da humanidade o whatsapp voltou a funcionar e cada um deles, pode, afinal, voltar a seu mundo virtual particular. É tudo de uma estranha tristeza. Mas, pode ser que eu esteja errado, que o carteiro nunca mais chegue para nos trazer uma carta, que não nos surpreendam mais com as caligrafias alheias e que toda essa história do dia que o whatsaap parou logo se torne um même na internet, desses repetidos várias e várias vezes nos nossos whatsapp e facebooks. Se possível, com muitos likes!

Perfil
Carlos Araujo é Presidente da Comissão de Advocacia Corporativa da OAB-RJ.
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