Artigos
Silvio Motta Maximino
Filosofia na prática
Vítimas da Síndrome de Gabriela

“Eu nasci assim, eu cresci assim, sou mesmo assim, vou ser sempre assim”. Eis o refrão da célebre canção “Gabriela, Cravo e Canela”, lembrada também pelo escritor M. S. Cortella em sua análise do que ficou conhecido como "Síndrome de Gabriela". A metáfora serve para explicitar uma tendência para justificarmos nossas próprias atitudes, manias, costumes e jeitinhos. Mais algumas pitadas de falácia ideológica e facilmente chegamos à tese de que haveria uma natureza genética determinando nosso jeito de ser. Outro lado da mesma moeda vem com a tese da herança cultural, determinante daquilo que somos. Há ainda quem prefira sentenciar que a pré-existência de um Criador nos definiria por si só. Mas, se algo/alguém nos define, coisificados ficamos. Evapora-se a tênue dignidade de pessoa, de sujeito dotado de livre-arbítrio, enfim.  

Afinal, o que fazemos, desejamos ou sentimos é produto do ambiente ou quiçá de uma sopa de hormônios e neurônios? Ou a causa habitaria algum nebuloso e abstrato plano metafísico? Ao que parece, nenhuma das hipóteses explica, isoladamente, o fenômeno antropológico. Sejamos honestos: Vamos ao espaço sideral e ao fundo dos mares, mas qualquer gripe ou dor de barriga ainda nos aborrece, qualquer objeção nos tira o verniz da compostura. Em quê exatamente estamos melhores que nossos ancestrais? Como é que se lida com um corpo ou com uma alma? E diga lá: como é que se lida com o outro? A síndrome de Gabriela mostra que quase nunca é fácil mudar. Seja uma mania, um vício ou um paradigma. Pode não ser vício em nicotina ou cocaína, mas de repente é na cafeína e na sacarina; pode ser vício em sexo, jogos, em fofoca, em trabalho, em reclamação, em álcool e a lista parece que não termina... somos viciadíssimos até em pensar! Pensamos muito, agimos pouco. Quer ver só? Tente parar de divagar ou de preocupar-se por dez minutos e depois diga a si mesmo o que conseguiu.

Na verdade, todo aprendizado exige um esforço, quase sempre um sacrifício, certamente um desconforto. E pronto! É aí que escorregamos na tal ‘síndrome de Gabriela’. Sem a dose certa de motivação, não conseguimos mudar, mesmo que o desejemos; antes, justificamos e até racionalizamos nossas condutas, não importa quão feiosas ou fedidas sejam. Sempre se pode achar uma justificativa, até para ser corrupto e genocida. Hitler, Stalin ou Bush são exemplos. Mas todos temos nossos momentos em que acabamos justificando nossa preguiça, gula e cobiça; desculpamos com impressionante facilidade nossas próprias luxúrias, apegos e paixões.

Agora, notem o paradoxo: Estudos baseados na medição do carbono 14 no organismo, concluíram que, ao cabo de alguns anos (entre 7 a 10), em média 98% dos átomos presentes no nosso corpo são renovados por meio do ar que respiramos, da luz e demais alimentos consumidos. Quer dizer: nossas células são substituídas frequentemente! temos um corpo novinho em folha em poucos anos! Se é assim, por que a tal de ‘Gabriela’ continua aparecendo? Por que custamos tanto a mudar? A resposta pode estar, segundo estudiosos, nos padrões vibracionais que emitimos (já que toda matéria emite uma vibração energética definida). Assim, tais padrões, aos poucos, imprimiriam suas ‘assinaturas’ nos planos físico e psíquico. É assim que afinal, adoecemos: o corpo, a alma, a família e a sociedade, até chegar à cena dantesca que vemos hoje no mundo.

A solução para o paradoxo pode estar no conhecimento de si mesmo, desses padrões vibratórios que operam como ‘programas’ (softwares), em forma de memórias, pensamentos e sentimentos... Assim, se nos perguntarmos: Já nascemos possessivos, mesquinhos, preconceituosos ou moralmente fracos? Há um DNA ou ambientes específicos que nos definam como bondosos, altruístas ou amorosos? Podemos responder: temos todas as tendências e possibilidades latentes, potenciais dentro de nós. Aqueles condicionamentos gerados por mera censura ou repressão social são eficazes só até certo ponto bem limitado. A educação funciona apenas como uma fina casca de verniz... ela se trincará nos primeiros estresses que o sujeito encontrar. Basta olhar para o tamanho de nossos sistemas prisionais e hospitalares.

A síndrome parece decorrer de nossa própria identificação com os programas, com tais memórias ativas que se auto-executam em nós mesmos. Percebamos enfim, que não somos os programas que estão instalados. Somos de fato, co-programadores de quem somos! Mas se nos confundimos com tais programas, seremos presas fáceis. Inadiável que busquemos a via direta do autoconhecimento, sem os rótulos ideológicos materialistas e metafísicos. Somente nós ante nós mesmos.

Perfil

Professor e palestrante nas áreas de Filosofia, Antropologia e Autoconhecimento.

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